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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A Antibiblioteca – todos os livros que eu ainda não li


Aviso:
Este post é altamente superficial e desnecessário, e eu até pediria desculpas por isso, mas o fato é que você não é obrigado (a) a ler esta joça.




“O escritor Umberto Eco pertence àquela classe restrita de acadêmicos que são enciclopédicos, perceptivos e nada entediantes, Ele é dono de uma vasta biblioteca pessoal (que contém cerca de 30 mil livros) e divide os visitantes em duas categorias: os que reagem com: “Uau! Signore professore dottore Eco, que biblioteca o senhor tem! Quantos desses livros o senhor já leu?”, e os outros – uma minoria muito pequena –, que entendem que uma biblioteca particular não é um apêndice para elevar o próprio ego, e sim uma ferramenta de pesquisa. Livros lidos são muito menos valiosos que os não-lidos. A biblioteca deve conter tanto das coisas que você não sabe quanto seus recursos financeiros, taxas hipotecárias e o atualmente restrito mercado de imóveis lhe permitam colocar nela. Você acumulará mais conhecimento e mais livros à medida que for envelhecendo, e o número crescente de livros não-lidos nas prateleiras olhará para você ameaçadoramente. Na verdade, quanto mais você souber, maiores serão as pilhas de livros não-lidos. Vamos chamar esta coleção de livros não-lidos de antibiblioteca.”


O trecho acima é do livro A Lógica do Cisne Negro de Nassim Nicholas Taleb, que fala sobre “o impacto do altamente improvável” e promete nos ensinar a “gerenciar o desconhecido” (ou pelo menos é o que a capa diz).

Ainda nem cheguei na metade do livro, mas poderia ficar falando sobre ele por horas (o que não é nada alarmante posto que geralmente eu posso falar horas sobre qualquer coisa).

No livro Taleb apresenta alguns conceitos com potencial brisativo quase infinito e bate continuamente na tecla de que “o que você sabe não pode te machucar”.

É engraçado (pra dizer o mínimo) tentar ver as coisas por este ângulo. A gente sempre acha que o que a gente sabe influencia muito mais na nossa vida do que aquilo que a gente não sabe. E no caso da antibiblioteca é ainda pior, porque é quase uma regra que os livros que você leu te definem.

O erro é que enquanto eu carrego um exemplar de O Apanhador no Campo de Centeio pra cima e pra baixo, visto uma camiseta com a uma frase do Bukowski e uso uma caneca do Laranja Mecânica eu esqueço que mais do que colocar uma etiqueta pseudo cult na minha testa, os livro que eu li me transformaram, expandiram minha mente e abriram as portas para que outros livros, outros autores, outros conceitos, mais histórias e mais personagens entrassem na minha vida.

Fiquei com essa coisa da antibiblioteca martelando na minha cabeça, é como se para cada livro lido as estantes da nossa biblioteca se expandissem e criassem lugares para outros livros. Talvez isso pudesse ser explicado porque ler é sim um ato viciante, ou porque a cada troço bem escrito que você lê acaba comprovando a capacidade humana de criar, transmitir ideias e perceber a si mesma de maneiras tão distintas e isso quase anula todas as bobagens com as quais a mesma humanidade nos bombardeia todos os dias. Ou vai ver eu só me impressionei coisa a antibiblioteca porque o conceito criado por Taleb explica de maneira quase lógica minha compulsão por comprar livros e a satisfação de vê-los se empilhando no meu quarto, ao mesmo tempo em que me livra da pressão de ter que ler todos os livros que tenho antes de adquirir outros.

Como falei no começo do texto, o potencial brisativo de A Lógica do Cisne Negro é quase infinito, só no parágrafo acima citado há muito mais a ser explorado, mas por enquanto é bom simplesmente lembrar que um livro não é uma mera bijuteria intelectual ou apenas “um apêndice para elevar o próprio ego, e sim uma ferramenta”.



quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Os 13 melhores livros que li em 2013


AVISO:
Sim. Eu sei que organizar listas é uma atividade fútil e na grande maioria das vezes sem qualquer propósito, mas eu vou fazer assim mesmo.

AVISO 2:
Não. Eu não sei por que estou fazendo isso. Eu tenho uma vaga ideia do motivo que nos leva a abarrotar a internet com informações não solicitadas e de maneira geral irrelevante, mas esta é uma ideia que pretendo desenvolver em outro post e por enquanto vou seguir fazendo listas simplesmente porque esta é uma atividade muito mais fácil que brisar sobre o motivo que me leva a manter este blog.

AVISO 3:
Este é um daqueles posts com mais imagens que ideias, então aproveitem
(ou não)

E dito isto eu estou apta a declarar ao mundo os 13 melhores livros que li em 2013

O Melhor da Super
É, eu tenho total e plena consciência da overdose de nerdice que é um livro reunindo as melhores reportagens dos 25 anos da Superinteressante, mas o troço é realmente interessante (pra dizer o mínimo). Além disso, este livro virou uma espécie de farol de nerds, sempre que estava lendo este livro na loja aparecia alguém pra comentar “Super? Muito bom” e a partir daí a nerdice corria solta.
Por todo aprendizado, brisa e constatação de vida inteligente em Guarulhos, o livro valeu cada centavo.


A Queda
“Sim, eu morria de vontade de ser imortal. Eu me amava demais para desejar que o precioso objeto de meu amor desaparecesse para sempre.”


Albert Camus (pronuncia-se “Kamy”) já tinha entrado para a minha lista de “autores que eu quero ler mais” com O Estrangeiro, aí bastou ler a primeira linha da sinopse de A Queda (“Um advogado francês faz seu exame de consciência num bar de marinheiros, em Amsterdã.”) para o “querer” virar “preciso”.

 O livro é bem curtinho, só 111 páginas, mas em apenas 111 páginas Camus faz mais do que muitos autores sonham fazer.
         
E talvez eu até pudesse usar o argumento de Camus para justificar o porquê de fazer esta lista, mas isso seria canalhice demais (ou não?).

“Não somos todos semelhantes, falando sem cessar e para ninguém, sempre confrontados pelas mesmas perguntas, embora conheçamos de antemão as resposta?”
         

O Príncipe da Nevoa
Eu já disse algumas vezes que Carlos Ruiz Zafón poderia escrever um livro sobre uma sala vazia e ainda assim o livro seria excelente, porque ele encontraria algum mistério assombrando as vigas do teto ou os cantos da sala, alguma história mal resolvida sobre as tabuas do assoalho, combinaria as palavras certas para falar sobre a luz do sol entrando pelas vidraças empoeiradas e as sobras que elas geram e no meio disso ainda acharia um jeito de matar um personagem e nos devastar. Alguém comentou que certo texto era “quase comestível”, e esta é uma boa definição para a maneira como Zafón escreve, a forma como ele conta a história é tão genial quanto a história em si.
Este ano li dois livros deste cara: O Principe da Névoa e O Palácio da Meia-noite. Gostei mais do primeiro, que mesmo não sendo o melhor do Zafón ainda assim é excelente.


A Arte de Viajar
“Ficamos tristes em casa e culpamos o tempo e a feiura dos prédios, mas na ilha tropical aprendemos (depois de uma discussão num chalé, sob um céu azul imaculado) que as condições climáticas e a aparência de nossa morada jamais serão capazes, por si só, de escorar nossa alegria ou nos condenar à infelicidade”.


Já brisei sobre este livro aqui no blog, então vou deixar a preguiça prevalecer e só colocar o link da brisa no lugar onde eu deveria falar alguma coisa do livro.
Interessados, favor clicar AQUI.


O Azarão, Bom de Briga e A Garota Que Eu Quero


Se você já leu A Menina que Roubava Livros então sabe do que Markus Zusak é capaz.
Quando eu terminei de ler a trilogia dos irmãos Wolfe a minha vontade era abraçar o Markus Zusak, e eu nunca antes quis abraçar qualquer autor (na maior parte do tempo minha vontade é drenar o talento e as ideias dos autores que eu leio para o meu cérebro). Poucos personagens são tão humanos e tão fáceis de amar justamente devido às suas falhas e agonias quanto o Cameron, e em cada um dos livros isso fica melhor (ou pior).

Comentário completamente aleatório e fora de propósito: quando eu vi o clipe de Royals da Lorde, não pude evitar uma “comparação” (por falta de termo melhor) com o Bom de Briga. Agora toda vez que escuto a música me lembro do Cameron e do Rube.




Pedaços de um Caderno Manchado de Vinho

“Os gênios são aqueles capazes de dizer algo profundo de maneira simples. Palavras eram balas, raios solares, palavras eram capazes de romper o infortúnio e a danação.”

Bukowski é um daqueles autores que qualquer coisa que você falar sobre não vai ser o suficiente e você ainda corre um risco muito sério de falar bobagem. Então vou me limitar a dizer que o velho safado, bêbado e fodido tem o poder de evidenciar o que há de mais sagrado e elevado com sua poesia assim como também consegue esfregar na nossa cara toda a miséria que nos rodeia, e nos dois casos a experiência é válida.


Divergente e Insurgente
Todo mundo ama distopias. A gente adora ver o povo se lascar em escala global e sofrer comendo o pão que o governo totalitário amassou. E é desnecessário dizer que Veronica Roth sabe usar muito bem essa nossa ânsia sádica pra nos prender à história de uma sociedade organizada em facções.
Nem vou me estender muito pra não correr o risco de ter um ataque de fã, mas  tenho que dizer que quando terminei de ler o Insurgente eu fiquei passada com o final do livro.
Aquele final... Nossa. Affe. Uau e mais um quilo de interjeições.


Condenada


Qual a primeira regra do Clube da Luta?

É isso ae, todo mundo sabe que não se deve falar do Clube da Luta. Assim como todo mundo sabe que a brisa dos livros do Chuck Palahniuk estão todas em um outro nível de brisa. Então o criador do Tyler Durden, resolve contar um história sobre uma adolescente gorda que vai pro inferno arrancar o bigode do Hitler, e é óbvio que este livro estaria na lista de melhores livros que eu li este ano.


Todo Dia
Comprei este livro porque achei que a brisa sobre um ser que acorda cada dia em um novo corpo e toma por 24 horas a vida de alguém emprestada seria uma brisa doida e desenfreada. Aí nos primeiros capítulos a coisa toda degringolou para um drama adolescente que à primeira vista soava água com açúcar. Como eu tinha comprado o livro (tipo comprado com dinheiro e tal, é sempre bom ressaltar o dinheiro) continuei lendo pra ver no que aquela história ia dar, e o que parecia um livro bobinho sobre adolescentes se transformou em uma profunda reflexão sobre todos os tipos de preconceitos que a gente carrega. E é impressionante como o David Levithan consegue falar sobre assuntos sérios de maneira simples e direta (afinal o livro é mesmo pra adolescentes).


O Herói Perdido


Sim, todo mundo histérico com o A Casa de Hades e eu ainda lendo O Herói Perdido, mas é a vida...
E posto que é um livro do Rick Riordan, tem que falar mais alguma coisa?
Eu já tinha lido os 5 Percy Jacksons. Eu já tinha lido os 3 das Crônicas Kane. Ae o cara vai e coloca num mesmo livro as mitologias grega e romana e tira um barato com as duas.
Vou falar mais o quê?



quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Huxley, o macaco e a essência



"O amor elimina o medo; mas reciprocamente o medo elimina o amor. E não apenas o amor. O medo elimina a inteligência, elimina a bondade, elimina todo pensamento de beleza e verdade. Só persiste o desespero mudo ou forçadamente jovial de quem pressente a obscena Presença no canto do quarto e sabe que a porta está trancada, que não há janelas. E então a coisa o acomete. Ele sente uma mão na sua manga, respira um bafo fétido, quando o ajudante do carrasco se inclina quase amorosamente para ele. “É a sua vez, irmão. Por aqui, tenha a bondade.” E num instante o seu terror silencioso se transforma em frenesi tão violento quanto inútil. Não é mais um homem entre os seus semelhantes, não mais um ser racional falando articuladamente a outros seres racionais; somente um animal ferido, ululando e se debatendo na armadilha. Pois, no fim, o medo elimina no homem a própria humanidade. E o medo, meus amigos, o medo é a própria base e fundamento da vida moderna. Medo da tão apregoada tecnologia que, enquanto eleva o nosso padrão de vida, aumenta a probabilidade de nossa morte violenta. Medo da ciência que tira com uma das mãos ainda mais do que tão prodigamente distribui com a outra. Medo das instituições manifestamente fatais pelas quais, em nossa lealdade suicida, estamos prontos a matar ou morrer. Medo dos Grandes Homens que elevamos, por aclamação popular, a um poder que eles usam, inevitavelmente, para nos massacrar e escravizar. Medo da guerra que nós não queremos mas tudo fazemos apara desencadear."



Uma vez, há algum tempo, eu quis escrever um post sobre O Macaco e a Essência – livro de Aldous Huxley de onde o treco acima foi retirado. Essa foi uma daquelas aspirações estupidas que se tem de vez em quando e que raríssimas vezes dão em alguma coisa e que definitivamente nunca dão certo.

Como em qualquer texto metido à besta que busca enaltecer um livro que o escrevinhador/blogueiro achou muito, muito, muito bom, este post começaria com a sinopse ou uma breve explicação sobre o que o livro que deve ser enaltecido trata, e este seria o primeiro erro, já que este tipo de informação é encontrado facilmente (e nós agradecemos ao Google por esta facilidade) e todo mundo sabe que qualquer informação que você vai atrás por interesse próprio é muito mais apreciada do que aquela que é esfregada na nossa cara.

Mas o grande problema de querer escrever qualquer coisa sobre este livro é que tudo e qualquer coisa que eu escrevesse ficaria inevitavelmente aquém do livro (porque o bagulho é bom e a brisa é louca). E enumerando mais alguns contras à ideia do post sobre O Macaco e a Essência, a vontade foi engavetada e ficou em coma por um bom tempo, até que está semana eu esbarrei no treco acima e ela resolveu ressuscitar-se.


A solução para suprir esta vontade imbecil foi simples: postar o trecho acima e deixa-lo agir como tapa na cara avulso e resumir este blábláblá todo em duas palavras: leia Huxley. Aliás, leia qualquer coisa do Huxley. Mais aliás ainda (esta expressão existe?), leia qualquer coisa de qualquer grande autor, permita-se ter acesso às grandes ideias e desfrutar da companhia das grandes mentes, mesmo que seja apenas através de um livro.

terça-feira, 4 de junho de 2013

O Azarão


AVISO:
Isto não é uma resenha, uma crítica ou qualquer troço do gênero. Não quero a responsabilidade de escrever um texto analisando um livro (assim como não quero tantas outras responsabilidades).

E dito isto estou habilitada a escrever a babaquice que eu quiser


“Uma coisa está para acontecer. Estava lá fora, em alguma parte além da vidinha limitada de sempre. Estava lá fora; não que me esperasse, mas existia. Era. Talvez estivesse só imaginando se eu ia alcança-la.”


Quanto mais você lê, mais exigente você fica. Quanto mais livros você devora, mais seletivo você fica com os próximos que vai ler. E quanto mais ficção você consome, mais ficção você quer consumir.

Eu tinha terminado de ler Mochileiro Aprendiz Aventureiro (livro autobiográfico que conta a história de um brasileiro fazendo suas brasileirices para sobreviver em Londres), e, como não tinha mais livro nenhum, terminei de ler o A Culpa é das Estrelas (livro que eu tinha desistido de ler e que vou me abster de fazer qualquer comentário). Tudo isso no mesmo dia, porque o movimento na loja estava morto e eu tive muito tempo livre. E foi aí que bateu o desespero de não ter livro nenhum e de ter mais três horas pela frente.

Impulsionada pela crise abstinência, desci até a livraria Nobel e lá entrei disposta a gastar os tubos desde que recebesse em troca uma porção consistente e considerável de ficção.

A vendedora que sempre me atende lá é muito simpática (ela acha que eu tenho cara de quem gosta de livros tipo Clube da Luta. Por que será?), logo que eu entrei na livraria ela perguntou o que eu estava procurando e eu cretinamente respondi “um livro”. Aí começou a via sacra de “tem tal livros? Não, este acabou. Tem aquele outro? Não, a procura foi muito grande, mas tem este aqui que acho que você vai gostar”. Sem brincadeira nenhuma, TODO livro que eu perguntei se tinha, não tinha.

Fiquei zanzando pela livraria enquanto a vendedora me oferecia um livro depois do outro e nenhum deles me dava aquela fissura de querer comer uma página depois da outra.

Acabei na estante da letra Z (os livros são organizados por ordem alfabética do sobrenome do autor), fui lá ver se tinha algum do Zafón que eu ainda não tinha lido. E foi quando minha mão esbarrou num livro do Zusak: O Azarão.

Se você ficou até às seis horas da manhã lutando para ler o final de A Menina que Roubava Livros enquanto seus olhos insistiam em se encher de lágrimas, então você sabe que Markus Zusak escreve pra caramba.

Eu já tinha visto O Azarão à venda na internet e nunca tinha me interessado, mas dado o meu desespero o livro pareceu caído do céu (e, de fato, foi mesmo).

O Azarão, o primeiro de uma trilogia, conta a história de um moleque, Cameron Wolfe, de 15 anos que zanza por aí tentando se achar e fazendo algumas besteiras enquanto isso. O livro lembra um pouco O Apanhador no Campo de Centeio e Outsiders, mas eu nem vou me aprofundar muito nessa comparação simplesmente porque toda comparação tende a ser injusta com os comparados (e porque comparação é um troço idiota mesmo, mas eu continuo fazendo).

E é surpreendente a simplicidade e a profundidade com que Zusak conta a história deste moleque. A gente sempre acha que uma boa história é inevitavelmente fruto de uma ideia mirabolante, mas O Azarão é um livro sobre um cara normal que mais de uma vez admite ser medíocre, e apesar de uma história super comum o livro é extraordinário – algo que só quem escreve absurdamente bem consegue fazer.

Resumo da ópera: 24 reais e uns quebrados muito bem gastos e a crise de abstinência vencida, o que mais eu poderia pedir de um livro?




sábado, 18 de maio de 2013

A arte da brisa



Aviso:
O nome mais acertado para este post seria “A arte de filosofar”, mas eu achei que “A arte da brisa” soava melhor.


Aviso 2:
Este post não é uma resenha, nem uma crítica, nem qualquer outra tralha do gênero. Se você quer uma classificação para este texto, encare-o como um comentário que se estendeu além da conta.


“Ficamos tristes em casa e culpamos o tempo e a feiura dos prédios, mas na ilha tropical aprendemos (depois de uma discussão num chalé, sob um céu azul imaculado) que as condições climáticas e a aparência de nossa morada jamais serão capazes, por si só, de escorar nossa alegria ou nos condenar à infelicidade”.



Sei lá desde quando A Arte de Viajar do Alain de Botton estava na minha lista de livros que eu queria, e sei lá por que eu não comprei este livro antes, pra falar a verdade eu nem me lembro como cheguei até este livro.

Eu gosto de ficar fuçando em sites que vendem livros, é como consultar um catálogo de vidas que você pode escolher viver: você olha a capa do livro, lê a sinopse e escolhe o que vai ser durante os dias em que estiver lendo aquele livro.

Sim, viver através de livros é uma vida pela metade, constantemente interrompida pela realidade, mas eu aprecio muito a sensação do meu cérebro interpretando as palavras impressas na página e enviando ordens para a “destilaria” dentro dele, que libera as “quimicazinhas” que me fazem sentir o que aquelas palavras estão dizendo. Eu realmente aprecio esta sensação. 

Provavelmente em alguma destas fuças entre livros à venda, meu cérebro passou a esperar para enviar à destilaria as ordens vindas de A Arte de Viajar.

Como consumidora ávida de ficção e acostumada a histórias com começo, meio e fim bem definidos, eu achei que o livro poderia ser meio complicado, mas a leitura é super fluida porque Alain de Botton escreve super, super, super bem.

Mais do que filosofar sobre o fascínio que o ato de viajar nos desperta, ou o por que nos dispomos a abandonar o conforto do lar, nos aventurar em culturas diferentes e “habitats” que não são os nossos e, por fim, por que sempre voltamos para casa, o livro acaba por oferecer uma nova maneira de encarar tudo a nossa volta. E a maneira com que o autor faz isso é o mais interessante: em cada parte do livro ele explora um lugar “junto” com uma personalidade.




Em determinado momento to livro, por exemplo, somos levados à Provença, na França, lugar onde Van Gogh viveu por 15 meses. A partir de um relato de viagem do autor, descobrimos como a região inspirou Van Gogh e como a presença do artista influenciou a cidade.

Nem preciso dizer o quanto eu brisei com o livro, né?

Ah sim. E além de tudo, o livro tem figuras!

Resumo da ópera: R$14,87 muito bem gastos (e o livro ainda chegou antes do prazo).



segunda-feira, 11 de junho de 2012

A musa e o Grande Irmão



AVISO:
Este texto foi anteriormente postado no blog do Social Rock Club.
Se você o leu lá, ignore-o aqui.

AVISO 2:
Dia 8 de junho fez 63 anos que 1984 foi lançado e dia 9 foi aniversário do Matt Bellamy, então achei oportuno publicar este post de novo.


 Para a grande maioria, a relação da banda Muse com a ficção se resume à trilha sonora dos filmes da série Crepúsculo (o que meio que estigmatizou a banda, já que a série de livros/filmes sobre os vampiros de Stephenie Meyer desperta o ódio na mesma proporção em que angariou fãs ardorosos). Mas uma olhada mais atenta e é fácil ver como a ficção vem inspirando a banda em suas músicas e clipes.

Tem como ver o clipe de Time is running out e não se lembrar do Dr Fantástico do Kubrick?


E de todas as vezes que o Muse buscou inspiração na ficção, nenhuma ficou tão evidente como no álbum The Resistance, de 2009 e atulhado de referências ao livro 1984 de George Orwell.

1984 foi publicado em 1949 e conta a história de Winston Smith, cidadão de uma sociedade oligárquica e coletivista, onde todos são observados de perto e contralados pelo Grande Irmão (em inglês Big Brother, e sim, foi de 1984 que saiu o termo que batizou aquela atrocidade televisiva).

“O Grande Irmão é onipotente. Cada sucesso, realização, vitória, descobrimento científico, toda sabedoria, sapiência, virtude, felicidade, são atribuídos diretamente à sua liderança e inspiração”.

Em meio a tanta repressão, Smith se depara com a insignificância de sua vida. Desiludido com sua existência miserável e consciente de que “respeitando as leis menores podia infringir as maiores”, ele começa uma rebelião contra o sistema.


Enquanto luta contra sua insignificância e contra o sistema, Smith se apaixona por Julia – um romance que vai contra as regras que sufocam Smith e que aos leitores mais desatentos pode parecer simplesmente mais um obstáculo para o personagem tropeçar e cair nas garras de seus opressores.

Matt Bellamy, vocalista e guitarrista do Muse, disse em entrevista que leu 1984 quando estava na escola e na época só prestou atenção aos aspéctos políticos da história, mas ao reler o livro anos depois foi a história de Smith e Julia que lhe causou maior impacto.

“Essa idéia de que o amor era o único lugar onde havia um pouco de liberdade. O ato de amar pode ser um ato político nesse tipo de cenário, como o único lugar onde o Estado não pode invadir sua privacidade.”

O impacto que a releitura de 1984 causou em Bellamy fica evidente em Resistance, segunda faixa do álbum. Ali estão todos os questionamentos de Winston – “será que nosso segredo está seguro esta noite?”, “ou será que nosso mundo está desmoronando?”, “isto pode estar errado, mas deveria estar certo” – e a convicção de que “Love is our resistance”.


 Em MK ULTRA Winston Smith e Julia lutam para manter seu relacionamento contra a pressão do Estado.

“O comprimento de onda cresce lentamente,
Noções coercivas se expandem novamente
Um universo preso em uma lágrima
Ressoa no núcleo,
Cria leis não-naturais
Substitui amor e felicidade por medo

Quanta decepção você pode suportar?
Quantas mentiras você criará?
Quanto tempo até você desmoronar?
Sua mente está perto do colapso”


 Como 1984 não foi escrito por Stephenie Meyer, o final feliz não é garantido. Winston e Julia são pegos pela Polícia do Pensamento, e é nesta altura do livro que Orwell deixa claro que é de dentro para fora que se destrói um indivíduo. Os dois são torturados e acabam delatando um ao outro. Diante da traição e da certeza de ter sido traído, Winston e Julia se separam e a rebelião de Winston chega ao fim.

Guiding Light, quinta faixa do álbum, retrata a desorientação e o vazio de Winston depois que a Polícia do Pensamento o libera.

“Você era minha luz orientadora

E o conforto e o aconchego não podem ser encontrados
Eu ainda procuro por você
Mas estou perdido, destruído, e gelado, e confuso
Sem uma luz orientadora”


O mais perturbador de 1984 é que, salvo alguns extremos, George Orwell conseguiu descrever bem a sociedade atual. “Hoje o que havia era medo, ódio, dor, porém nenhuma dignidade de emoção, nenhuma mágoa profunda e complexa”. E matt Bellamy demonstrou uma sensibilidade absurda ao perceber que é em suas paixões que um individuo mostra resistência contra todo o controle e influência da sociedade em que vive.

Sendo assim, rock’n’roll is our resistance. 

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Feliz Dia da Toalha



AVISO:
Se você sabe o que é o Dia da Toalha, este post não lhe proverá nenhuma informação nova.


Muito além, nos confins inexplorados da região mais brega da Borda Ocidental desta Galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido.
Girando em torno deste sol, a uma distância de cerca de 148 milhões de quilômetros, há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitivas que ainda acham que relógios digitais são uma grande ideia.
Este planeta tem – ou melhor, tinha – o seguinte problema: a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente à movimentação de pequenos pedaços de papel coloridos com números impressos, o que é curioso, já que no geral não eram os tais pedaços de papel colorido que se sentiam infelizes.
E assim o problema continuava sem solução. Muitas pessoas eras más, e a maioria delas era muito infeliz, mesmo as que tinham relógios digitais.
Um número cada vez maior de pessoas acreditava que havia sido um erro terrível da espécie descer das árvores. Algumas diziam que até mesmo subir nas árvores tinha sido uma péssima ideia, e que ninguém jamais deveria ter saído do mar.
E então, uma quinta-feira, quase dois mil anos depois que um homem foi pregado num pedaço de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar, uma garota, sozinha numa pequena lanchonete em Rickmansworth, de repente compreendeu o que tinha dado errado todo esse tempo e finalmente descobriu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz. Desta vez estava tudo certo, ia funcionar, e ninguém teria que ser pregado em coisa nenhuma.
Infelizmente, porém, antes que ela pudesse telefonar para alguém e contar sua descoberta, aconteceu uma catástrofe terrível e idiota, e a ideia perdeu-se para todo o sempre.
Esta não é a história dessa garota.
É a história daquela catástrofe terrível e idiota, e de algumas de suas consequências.

É assim que Douglas Adams começa O Guia do Mochileiro das Gálaxias, primeiro livro da trilogia de cinco livros que conta a história de Arthur Dent, Ford Prefect, Trillian, Zaphod Beeblebrox, Marvin – o andróide paranóide – e suas indas e vindas pelo Universo.

Alguns anos atrás vi o povo alardeando sobre o tal Dia da Toalha, fui ver que raios era isso, me deparei com a trilogia de cinco livros e, obviamente, me tornei fã do trabalho do Douglas Adams.

Como o prefácio do primeiro livro da série diz, desde tempos imemoriais houve menos de meia dúzia de mortais cujas mentes foram capazes de contemplar o universo em sua totalidade, Douglas Adams foi um deles. Ele compreendeu que “uma vez que cada pedaço de matéria no Universo é, de alguma forma, afetado por todos os outros pedaços de matéria do Universo, é teoricamente possível extrapolar a totalidade da criação – cada sol, cada planeta, suas órbitas, sua composição e sua história econômica e social a partir de, digamos, um pedaço de pão-de-ló”. E a grande sacada do Guia do Mochileiro é que o autor faz piada para falar das questões mais profundas e existenciais que assombram a humanidade (ou pelo menos os humanos que fazem uso de seus cérebros), e Douglas Adams consegue fazer isso com uma simplicidade absurda (em seus livros, para voar basta se jogar e errar o chão).

Por tudo isso, os fãs resolveram homenagear o autor declarando o dia de sua morte, 25 de maio, como o Dia da Toalha já que, segundo o Guia, a toalha é a coisa mais útil de todo o Universo.

“O Universo é um lugar desconcertantemente grande, um fato que, para continuar levando uma vida tranquila, a maioria das pessoas tende a ignorar”. 

Mas depois de ler O Guia do Mochileiro das Galáxias é impossível voltar a fazer parte da maioria que resolve ignorar a imensidão do Universo.


Feliz Dia da Toalha pra todo mundo – inclusive para quem não é nerd.