terça-feira, 27 de setembro de 2011

O lixo da NASA é o 2º Diabo



Quando eu estava escrevendo o Esquizofrenias (livro que ainda precisa de uma editora) eu assisti tudo quanto foi documentário e li tudo sobre astronomia que me apareceu pela frente. E no meio de todo este material sobre astronomia eis que me surge uma teoria que diz que o mito do Diabo teve origem quando um meteoro caiu na Terra.

E se você parar pra pensar vai ver que essa teoria tem até certa coerência: quando um meteoro atinge a atmosfera terrestre ele entra em combustão devido ao atrito causado pela grande velocidade, daí a coisa toda de ser um anjo de luz vindo do céu e caindo na Terra; e é raro um meteoro chegar ao solo com tamanho superior a um grão de areia, mas pode acontecer, e quando acontece o impacto de um corpo celeste caindo em alta velocidade nunca trás alegria e paz, e provavelmente deste fato se original a ideia de um ser personificando o mal e distribuindo caos e destruição por onde passa. Daí até o meteoro virar um ser com rosto humano, rabo pontiagudo, chifres e vermelho (!?) a fofoca mais mal contatada de todos os tempos percorreu um longo caminho.

Vendo as notícias sobre o satélite desativado da NASA que caiu no mar semana passada eu lembrei dessa história. E então me perguntei: já que Brasília é a fonte de inferno dos brasileiros, não seria justo um satélite de 6 toneladas (uma espécie de 2º Diabo) cair sobre o Plenário?


Claro, está é uma ideia idiota. A suspeita (já que a NASA não sabe nem determinar exatamente o local onde o lixo dela caiu) é que o satélite se despedaçou ao entrar na atmosfera, então o estrago não seria muito grande. E as chances são sempre maiores de um troço desses cair numa área desabitada ou no mar – até hoje não se tem registro de ninguém que morreu por ter sido atingido por um satélite ou outro lixo espacial que caiu do céu.

Mas, em todo caso, fica aí a dica para o próximo satélite que a gravidade resolver trazer de volta pra casa (principalmente para o alemão de 1,6 toneladas que está previsto para novembro): que tal você fazer uma visita para o nosso amigo Tiririca?

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Às vezes, de vez em quando

Há dias que não deveriam acabar enquanto outros passam tão rápido que nem percebemos... talvez, por isso, às vezes não parece ter sido real... mas há lembrança.

Tem horas que custam passar e gente que nunca vai desaparecer... gente que sumiu, gente que ainda vai surgir, nunca se sabe... e ainda tem aqueles que sempre acabam voltando... mesmo quando acreditavam não saber voltar.

Há luzes espalhadas pelo mundo, cada um acaba seguindo uma, outros seguem só as sombras, outros preferem a escuridão dos becos... e muitos de nós preferem não ver nada.

E no final todos são livres pra fazer suas escolhas, sempre, o tempo todo... o tempo todo há pessoas indo, voltando, escolhendo, desistindo, lutando... o tempo todo...

Todos sempre tem uma escolha. Sempre há uma. Mesmo que não seja o que se espera, sempre há escolha... o tempo todo, pra tudo...

disturbios

não quero ser apenas aquilo que posso ver, preciso ir além dos horizontes que meus pensamentos podem ir.
engraçado pensar em como essa frase martelou minha mente por tanto tempo, parecia querer me dizer para ir além, mesmo que eu não soubesse ir além do que... mas nem por isso parei de pensar como se precisasse descobrir algo sobre mim que eu ainda não soubesse.
é tão estranho pensar que pode existir algo sobre nós mesmo que não conhecemos. mas se for parar pra pensar, por quê não? o universo é algo gigante e ainda inexplorado por completo, isso tudo são milhões de atomos e moleculas que juntos constituem imensos corpos celestes, mas veja bem, "atomos e moleculas", são parte de nós, logo, somos parte do universo, logo, somos parte do mistério, ou uma parte da resposta.
fico confuso de pensar nessas coisas porque parece que quando vejo as coisas assim, as respostas que quero parecem diluir num copo d'agua, como se um analgesico caísse dentro. e então todas aquelas bolhas de ar, cada uma com uma resposta dentro vão desaparecendo, por mais que eu queira, não seria bebendo a agua que eu encontraria as respostas.
talvez, como odeio esse "talvez", existam mais coisas sobre nós mesmos que seja melhor não descobrir, ou que mesmo a ciencia não possa explicar.
mas há tão pouco o que não é explicado por ela, e, sempre há o atrito natural do lado cientifico e o filosofico. não sei para qual lado eu tenho tendencia de acreditar mais, porque há verdade em ambos os lados, há grandes heranças em ambos os lados, e não sei se quero ter que escolher, não quero ter que acreditar somente numa coisa, pois busco respostas de uma frase tão confusa quanto este momento em que escrevo, mas a idéia central era mesmo pregar a confusão, não sei se apenas em mim ou em você que leu e não entendeu nada.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

QUANTO VALE O SER HUMANO


Provavelmente você já escutou alguém dizer “fulano não vale nada” ou “fulano não vale o que come”. Provavelmente você já escutou isso várias vezes.
            
Acontece que, segundo um bioquímico da Universidade de Yale nos Estados Unidos, as frases que acima aparecem entre aspas estão cientificamente incorretas.
            
E destaco aqui a minha admiração pelo raciocínio lógico dos cientistas. Se me fosse dada a tarefa de calcular o valor de um ser humano, a minha primeira referência para calcular o valor seria a pergunta “quem é o ser humano a ser calculado?”, provavelmente eu estipularia valores mais altos para aqueles que eu mais estimo e ninguém valeira mais do que a minha – porque minha mãe é quase uma santa, quando ela morrer (e eu rezo para que isso demore muitos anos para acontecer) ela vai direto para a ala dos fumantes no céu.
            
Já o bioquímico que se propôs a calcular o valor de cada ser humano partiu do ponto de que todos somos iguais pois temos a mesma constituição química, e foi justamente a constituição química do nosso corpo que ele usou como base para calcular o “preço” de um ser humano.
         
Primeiro ele levantou uma lista de tudo que faz parte da nossa constituição: DNA humano, colágeno, hemoglobina, insulina e mais uma série de “inas” e outras substâncias que formam nosso corpo. Após verificar o valor do grama de cada uma das substâncias da lista, ele calculou a proporção de cada uma delas no nosso organismo e a partir daí encontrou o valor do grama do corpo humano: R$ 466,52.
           
 Após achar o valor médio de um grama do corpo humano, o bioquímico tomou como exemplo uma pessoa de 79 kg. Como o nosso corpo consiste em 68% de água, ele extraiu a quantidade de água de um corpo humano de 79 kg e obteve a biomassa (peso seco) de 24 kg e 436 gramas. Multiplicando o valor do grama pelo peso seco ele obteve como resultado que uma pessoa de 79 kg vale em média R$ 11.399.882,72.
            
Transformando os números em palavras este valor fica mais impressionante ainda: onze milhões trezentos e noventa e nove mil oitocentos e oitenta e dois reais e setenta e dois centavos.
            
Imagine se neste exato momento você tivesse R$ 11.399.882,72, e em seguida pense que, segundo o nosso amigo de Yale, cada ser humano, incluindo eu e você, de fato dispõe mais ou menos deste valor espalhado por todas as suas células.
            
Este é um pensamento estranho, que se levado a sério e ruminado por muito tempo faz o cérebro dar nó. Seguindo esta linha de raciocínio posso dizer que sempre que abraço alguém estou abraçando onze milhões trezentos e noventa e nove mil oitocentos e oitenta e dois reais e setenta e dois centavos; quando estou dentro de um carro aguardando o semáforo ficar verde e vejo outro motorista parado ao meu lado e um pedestre atravessando a rua, na verdade estou vendo onze milhões trezentos e noventa e nove mil oitocentos e oitenta e dois reais e setenta e dois centavos parados ao meu lado esperando o semáforo abrir enquanto onze milhões trezentos e noventa e nove mil oitocentos e oitenta e dois reais e setenta e dois centavos atravessam a faixa de pedestre; aquele número esmagador de pessoas que morreram nas guerras ou as que foram vitimas do descaso dos que estão no poder e morreram de fome ou de doenças que poderiam ser curadas se houvesse interesse político nisso, todas elas constituem um rombo incalculável nos cofres da humanidade.
           
De fato uma linha de raciocínio muito estranha esta.


Num mundo onde o que prevalece são as cifras e os lucros, estipular o valor de cada ser humano é algo realmente significativo, pois ninguém é louco o bastante para desprezar, ferir ou mesmo matar onze milhões trezentos e noventa e nove mil oitocentos e oitenta e dois reais e setenta e dois centavos.

sábado, 3 de setembro de 2011

O COMEÇO DE TUDO


No começo não existia nada, e então houve uma explosão.
Não foi uma explosão muito grande. E, diferente do que muitos pensam, não houve nenhum bang.
Cientistas afirmam que menos de um bilionésimo de segundo depois da explosão uma bolha muito menor do que uma fração de um átomo se formou. Esta pequena bolha era todo o Universo e tudo que existe hoje, o que já existiu um dia, o que um dia vai existir, tudo o que aconteceu depois aquela explosão e tudo o que ainda está por vir estava comprimido dentro daquela bolha minúscula.
Logo depois desta explosão, as forças que comandavam aquela pequena bolha desafiaram Einstein e o Universo se expandiu em uma velocidade maior que a da luz. E tudo bem que naquele momento Einstein ainda não existia e ainda não tinha dito que nada pode se mover a uma velocidade maior que a da luz, mas o fato de que nos seus primeiros momentos o Universo contrariou as leis de Einstein deve ser mencionado porque, ao que tudo indica, isso não acontece com muita freqüência.
Minutos depois a temperatura do Universo cai e acontece a formação do núcleo atômico. Surge o hidrogênio. Alguns átomos de hidrogênio se fundem formando o hélio.
Um bilhão de anos depois do surgimento do hidrogênio e do hélio, aparecem as primeiras estrelas e elementos como o nitrogênio, o oxigênio e o carbono são produzidos.
Passados nove bilhões de anos a matéria e a gravidade resolvem se combinar e formam uma estrela perfeita. A pressão no núcleo desta estrela é tão grande que gera calor e isso faz com que aconteça um troço chamado fusão termo-nuclear. Em volta desta estrela se forma um disco de poeira estelar, que se expande formando planetas e luas.
Um dos planetas que se formaram através deste processo foi a Terra, que muito tempo depois do seu nascimento se resfriou e acumulou água em estado líquido em sua superfície. E nas profundezas desta água acumulada na superfície terrestre aconteceram reações químicas que até hoje ninguém conseguiu entender muito bem e que geraram vida.
Agora, treze bilhões de anos depois daquela explosão, cá estamos nós, vivendo graças a esta série de eventos e desfrutando dos resultados dela. E, de certa forma, é como se a evolução destes bilhões de anos pesasse sobre os ombros de cada ser humano.
Não é estranho pensar que foram necessários mais de treze bilhões de anos para que um adolescente pudesse alardear nas redes sócias sobre o tédio que sente? Não causa um certo incômodo constatar que incontáveis reações químicas aconteceram no interior de estrelas longínquas para que religiosos pudessem distorcer palavras de fé e as transformassem em apologia ao ódio e discriminação? Não nos coloca numa posição desconfortável pensar em toda a energia e pressão necessária para que núcleos se fundissem e que um dos resultados deste processo – ainda que um resultado secundário – é um ser humano que aceita um trabalho desgastante e uma vida insatisfatória? Visualizar o planeta Terra se formando a partir de poeira estelar para que, bilhões de anos depois, a vida que surgiu e evoluiu neste planeta usasse seus recursos de maneira irresponsável, devastando-o como se não dependesse dele para viver, não nos faz ver o ser humano sob um olhar mais crítico? Encarar todo o processo que aconteceu para que a vida surgisse na Terra, a evolução até o ser humano atual, não nos faz refletir que ter como propósito de vida ser entretido e levar uma vida em vão é simplesmente inaceitável?
Pelo menos é este o efeito que causa em mim.
Encarar todo o processo que aconteceu desde aquela diminuta explosão até os dias de hoje me trás esta sensação de que todo ser humano deveria viver de maneira a se colocar à altura de todo este processo.
Talvez este seja um sentimento ingênuo – como um amontoado de carbono que anda e fala poderia se colocar à altura da formação de um Universo inteiro? – e sem nenhum fim prático. Mas, mesmo que não seja uma experiência fácil ou reconfortante, ou mesmo útil, de vez em quando é bom lembrar que foram necessários mais de treze bilhões de anos, incontáveis reações químicas e uma quantidade incalculável de energia para que pudéssemos estar aqui agora.

sábado, 27 de agosto de 2011

Medo


Ele buscava o topo da montanha a qualquer custo. Nada o impedia de sonhar cada vez mais alto. Nada o fazia perder a crença de um dia alcançar o estrelato que tanto sonhou. Nem mesmo o fato de ter perdido tudo, até mesmo seu emprego o fez desistir. Ele quer isso, não para provar alguma coisa para aqueles que não acreditaram, mas para ele mesmo que sempre acreditou. Para o seu ego, apenas.
Acordava cedo todos os dias como se ainda estivesse empregado, caminhava pelas ruas com sua câmera, a procura daquilo que um dia poderia lançá-lo longe.
Até que numa fria manhã de terça feira, resolveu comer alguma coisa só para enganar o estomago mais um pouco. Mas eis que ao entrar naquele bar tudo estava prestes a mudar. Chegou até o balcão e antes mesmo que pudesse pedir alguma coisa, ouviu a arma engatilhando atrás de sua cabeça.
Rezou muito, pediu para que ao menos pudesse sair vivo daquela situação. Mas antes que o meliante fosse embora, se deu conta que aquilo era só o começo do rumo ao estrelato que tanto buscou. Abriu os olhos e naquele instante viu que tudo tinha acabado. Mas não para ele.
Aquela sequência de acontecimentos momentâneos o incomodou por muito tempo. Mas não ao ponto de fazê-lo desistir de encontrar aquele que o fez encontrar o que precisava para chegar de novo ao topo que nunca pôde ver de perto.
O tempo parecia correr contra ele, mas não desistiu. Acreditou que cegamente que agora sabia o porquê de ser repórter. Buscou informações em todos os lugares e por todos os meios, exatamente como aprendeu nos tempos de faculdade e de quando estava ainda no jornal. E após muito tempo perguntando em todos os becos, para todos aqueles que pareciam "perigosos", finalmente uma pista que poderia seguir. Os dias passaram e ele acompanhou ao longe o bandido que colocou a arma em sua cabeça, ia memorizando todos os passos rotineiros do homem. Pensava em como poderia abordar um sujeito que poderia tê-lo matado. Não tinha idéia se estava daquele jeito por medo ou ansiedade. Começou a se questionar se a fama valia tanto assim.
Todos os dias ele respirava fundo e acompanhava aquele homem, claro que ele já deveria estar desconfiado de estar sendo seguido e que isso poderia acabar mal, tinha que pensar nas possibilidades, pensou que seu suor já exalava medo. Mas não ia recuar, parou como sempre ao lado do poste, olhando para frente, esperando o momento que o meliante sairia daquela porta e formulava várias perguntas novas, mesmo que já tivesse muitas anotadas. Mas algo estava errado, já passava do horário e nada da porta se abrir, aquela rua movimentada como sempre parecia bem vazia, as pessoas todas pareciam encarar esse repórter desempregado.
"-Ei, por que você fica aí o dia todo olhando ali? Você é policial?" perguntou o bandido surgindo ao seu lado. Andou até ficar de frente. Encararam-se ambos estavam maltrapilhos, estavam frente a frente. E aquele rosto que nunca chegou a ver tão perto, o fez lembrar-se do som daquilo que o vez ver tudo além do que queria. Não era o medo que realmente sentiu aquele momento, não era nada além da vontade de fazer uma proposta da qual poderia um dia se arrepender, mas que o alçaria da forma que sonhou.
"-Não, não sou policial, sou só um repórter, mas preciso muito falar com você." Aquela frase ecoou dentro de sua mente, seu coração parecia acelerar.
E o meliante aceitou conversar. Aquele homem sombrio, que parecia não ter expressões, nem demonstrava qualquer emoção. Mas agora era tarde para recuar. Fez a proposta, falou de sua grande idéia. "Um sequestro?" - perguntou o meliante. "Sim, deixe-me explicar". Naquela hora, todas suas anotações escritas e mentais pareciam ter desaparecido, que proposta era aquela que ele fazia a um malfeitor?
"-A minha idéia é simularmos um sequestro meu, onde vou relatar tudo o que passei, depois escreveria sobre o sequestrador, ambos seremos astros, ambos teremos fama e fortuna, não importando como conseguimos". Era tudo muito bem planejado, principalmente por ser um improviso de tudo que ele deixou para trás ao contar isso.
Contou tudo, explicou os detalhes de seu plano, não teria como dar errado. Mas dependia do bandido aceitar, a grana era alta, claro, porque mesmo desempregado, ele era um repórter conhecido na mídia, foram muitos anos dentro do mesmo jornal, as pessoas sabiam quem ele era, iriam querer ajudá-lo num momento de dificuldade como esse. E como as coisas poderiam dar errado? Mas nem tudo pode dar tão certo.
O bandido e o repórter seguiram para dentro do apartamento onde o bandido morava, conversaram sobre o plano, era realmente muito bom para ser algo apenas improvisado. Pediu ao homem um copo d'água, viu a arma sobre a mesa, aquele ser que um dia colocou a arma em sua cabeça estava de costas, assim como ele estava quando se viram pela primeira vez. Não pensou duas vezes, foi tomado novamente pelo medo, mas agora era ele quem estava em vantagem. Engatilhou a arma, pegou uma almofada do chão e encostou no bandido. Aquele homem que nunca parecia expressar nada, fechou o rosto, dava medo até mesmo de pensar qualquer coisa, eis que a arma é disparada, e, naquele apartamento sujo e escuro, isolado, quem poderia saber que eles estavam lá, ou quem saberia ao menos quem eram eles. Um disparo abafado por uma almofada. Foi só o que se ouviu e o que nunca ecoou. Tudo parecia mais escuro, muito mais.
Ele limpa as digitais da arma, sai andando tenta não demonstrar qualquer emoção ou sentimento. Seus sonhos estavam enterrados de vez. Aquele homem que um dia sonhou em ser o maior repórter que já se ouviu falar acabou de matar. Sorria escondido, estava satisfeito. Não queria mais os sonhos do passado, queria apenas ter a satisfação de tirar a vida daquele que poderia te-lo matado. Mas e agora esta era sua nova realidade? Esta seria sua nova vida?
A sensação do medo, a frieza, não sabia explicar o que sentia, o que se passou naquele instante em que puxou o gatilho, não sabia expressar ao certo o que houve, mas estava satisfeito, como se tivesse virado uma pagina mal escrita. E agora manchada de sangue, uma marca que jamais poderá tirar de sua vida, que jamais irá revelar, não sabia por que fez isso, não sabia explicar nem a si mesmo por que mudou de idéia, da entrevista, ao sequestro, à morte. Agora vai para casa escrever uma crônica sobre seus momentos de pavor ao quase morrer, mas guardando em seu intimo a sensação de ter estado do lado oposto da situação, afinal, agora ele pode ter um emprego de novo, será a melhor história que já escreveu e que nunca a contará por completo.

domingo, 21 de agosto de 2011

TRÊS VEZES MORTO


Conto mórbido e inspirado em uma música dos Stones que recebeu menção honrosa no III Concurso Claudionor Ribeiro de Contos


          O barulho da sirene me mantém acordado, um grito contínuo que não me deixa dormir. Eu deveria estar sentindo dor, mas eu não sinto nada, apenas sei que a dor está ali. Saber é diferente de sentir.
Levanto um pouco a cabeça na tentativa de ver o estrago, mas tudo o que eu vejo é que um velho está sentado do meu lado segurando a minha mão. Ele me lança um olhar complacente e não diz nenhuma palavra, mas eu sei que ele compreende tudo e conhece todos os passos que foram necessários para me colocar dentro daquela ambulância. E em toda a sua benevolência ele não me julga, embora ele saiba tudo que eu fiz.
O toque da mão dele na minha é todo contato humano que já existiu, mas é completamente desprovido de calor humano. As linhas em seu rosto contam uma história que eu nunca vou conhecer.
“Você entende?”, ele me pergunta sem proferir qualquer palavra.
Eu respondo que sim, eu entendo. Eu entendo que esta é minha última noite e que a corrida de ambulância é meu último passeio. Antes de o sol nascer de novo eu já vou ter partido, este é meu fim.
Mais uma vez sem recorrer às palavras, ele me pergunta se eu sei o que é a morte. Eu respondo que sempre achei que morte é quando você deixa de ser o que é e passa a ser qualquer outra coisa. O velho acena que sim com a cabeça. Ele sabe o que eu sei.
E eu sei que todo mundo morre. Alguns morrem um pouco a cada dia e outros, tudo de uma vez. Eu ia experimentando a morte dos dois jeitos.
           Comecei a morrer há alguns anos, quando arrumei um trabalho que odiava. O serviço era bom, salário razoável, a empresa muito respeitada e eu odiava o meu trabalho.
Mas a vida é assim mesmo, não é? É isso que é ser adulto e responsável. Ou pelo menos era o que eu acreditava que era.
            O trabalho que eu odiava foi me consumindo e me transformando aos poucos, eu só era eu mesmo no meu tempo livre. Eu vivia para os fins de semana e feriados, só depois do horário comercial da sexta-feira é que eu me sentia vivo. E quando eu vivia, eu tinha que viver ao máximo. Quarenta e oito horas para estar vivo, e tudo o que pudesse potencializar a aventura de estar vivo antes do monstro da segunda-feira chegar para me matar era bem-vindo.
Acredite em mim, você pode fugir de si mesmo para sempre, basta você preencher seu tempo com tudo aquilo que não é sobre você. Existem lugares com som tão alto que você não consegue escutar seus próprios pensamentos, substâncias que entorpecem seus sentidos a ponto de nenhum deles conseguir perceber a vida que você leva, e há todo o tipo de estimulo para você correr desesperadamente atrás daquilo que você não precisa e não tem certeza se realmente quer. Está tudo aí ao seu alcance, fácil acesso. Na dose certa você vai se dissolvendo aos poucos e nem percebe.
O único problema é que esse tipo de coisa pode te matar.
Comigo aconteceu isso, eu morri. Fui morrendo quando os meses foram passando e se transformaram em um ano e depois um ano e meio. Eu deixei de odiar o meu trabalho e passei a me odiar por me submeter a algo que eu detestava tanto. Ansiar pela sexta-feira à noite não era mais o bastante, meu tempo vivo sempre acabava tão rápido e as horas em que eu não estava fugindo pareciam se arrastar cada vez mais, cada vez mais lentas. Então eu me perguntei por que esperar até sexta-feira à noite e comecei a providenciar doses de fim de semana para curar a ressaca na segunda-feira, passei a encarar a terça-feira à noite como sexta e quarta-feira como meu feriado particular. Até que chegou um ponto em que eu não era mais eu em dia nenhum, eu era a fuga de mim mesmo em tempo integral.
E de repente eu me vi deitado num leito de hospital e me perguntei o que eu estava fazendo ali. O velho estava sentado em uma cadeira próxima à cama, foi ele quem respondeu minha pergunta.
As faixas amarelas pintadas sobre o asfalto preto – ele falou daquele jeito dele, sem palavras.
E eu me lembrei de tudo.
Eu estava bêbado no meu carro, dirigindo por uma estrada – que estrada era aquela é o tipo de informação que agora não tem mais importância. Eu só queria continuar dirigindo.
O rádio do carro estava ligado e eu via o som que saia dos alto-falantes como ondas, que saiam se contorcendo das caixas de som, se curvavam quando encontravam algum obstáculo e então seguiam se dissipando.
Nem perdi meu tempo querendo saber por que eu estava vendo aquilo ou por que eu nunca tinha visto aquilo antes. Talvez eu nunca tivesse reparado. E entretido com as imagens que se moviam conforme a música eu me atrapalhei em uma troca de marcha.
O motor do carro morreu, eu tentei dar a partida de novo e o carro engasgou. Outra tentativa e o mesmo resultado. Eu saí do carro e abri o capô, olhei para aquele monte de peças e cabos sem saber por que é que eu tinha me dado ao trabalho de fazer aquilo – eu nunca entendi nada de mecânica.
Voltei para dentro do carro e girei a chave na ignição mais uma vez, veio o mesmo som engasgado. O carro não ia pegar mesmo e eu estava ali no meio do nada.
Por mais um tempo me deixei entreter pelas ondas de som, mas acabei ficando impaciente. Então saí do carro e comecei a andar, só andar.
Quando me dei conta estava andando sobre aquelas duas faixas amarelas que separam uma pista da outra. E era reconfortante a sensação de ter uma direção a seguir, tudo o que eu tinha que fazer era colocar um pé na frente do outro e continuar em cima da linha. Eu gostei da simplicidade daquilo. Todo o resto era confuso e complicado, mas ali naquele momento tudo o que me interessava era o contraste dos meus sapatos pretos sobre a faixa amarela pintada no chão.
            Para onde eu estava indo? Por quanto tempo eu caminhei sobre aquelas linhas? Até onde eu chegaria se aquele carro não tivesse me atingido? Eu não sei, e isso pouco importa agora.
          Um caminhão que vinha na direção oposta a que eu seguia teve que desviar e seguir pelo acostamento para não me atingir. Eu vi as ondas do som dos pneus se enroscando uma nas outras e então se espalhando pelo asfalto quando o caminhão desviou. Depois de um tempo um carro apareceu do nada e buzinou, com as ondas do som da buzina se dissipando para todos os lados.
            Eu segui andando sobre as faixas, até que numa curva vi dois faróis vindo para cima de mim e depois não vi mais nada.
            E então eu estava na ambulância. Então eu me vi no leito do hospital.
          Uma enfermeira entrou no quarto. Ela sorri para mim, é aquele tipo de sorriso que diz que vai ficar tudo bem e que mesmo sendo uma mentira aquilo te faz bem. Sustentando sua expressão tranqüilizadora ela me aplica uma injeção.
Eu não senti a agulha cravada na minha pele, a única coisa que senti foi o efeito. A injeção foi tão libertadora quanto todas as fugas, aos poucos me privou dos meus sentidos que diziam que eu fiz tudo errado.
            Mais um sorriso mentindo que tudo ia ficar bem e a enfermeira foi embora. E mais uma vez estamos só eu, o velho e a certeza da minha morte.
            Dentro do quarto do hospital, entre paredes pintadas de um branco impessoal e o sob o zumbido de lâmpadas fluorescentes, o tempo parece estagnado. Mas isso é só impressão, na verdade ele está correndo como sempre esteve.
Como eu sabia que ia acontecer, antes do dia amanhecer o velho se levanta da cadeira e acena para mim. Chegou a hora. Ele me entrega meu casaco – não o casaco ensangüentado e amarrotado que eu vestia quanto me trouxeram para o hospital, mas um casaco limpo, o mesmo casaco só que em perfeitas condições. Ele me ajuda a vestir o casaco, eu me levanto da cama e nós dois seguimos para fora do quarto.
A mão do velho repousa no meu ombro, protetora e me encorajando, enquanto andamos pelo corredor. E nesta hora eu entendo que o velho também está morrendo, ele está morrendo naquele exato momento, enquanto andamos lado a lado. Aquele velho é tudo o que eu poderia ter sido, todas as experiências que eu viveria se continuasse vivo, o velho morre junto comigo porque aquele velho é tudo o que eu nunca vou ser. As linhas no rosto dele contam uma história que eu nunca vou conhecer, uma história não vivida.
          A cada passo sinto pesar mais e mais a constatação de que vou permanecer para sempre jovem, para sempre preso na apatia antes dos trinta. Eu morri quando desisti de mim mesmo, eu morri quando aquele carro me atropelou e eu morri quando perdi a chance de viver tudo o que poderia ter sido.